Ẹgrium Tạdrel


VVVV




Ela até se esforçou. Uma análise de um texto pretensamente acolhedor

GFRB:UUGU (2026-07-11)

Aqui, me proponho inicialmente a fazer a análise não exatamente da letra da música a seguir, mas mais especificamente do trecho que nos afeta e diz respeito como descrentes. Em seguida, crônica, dissertação e uma síntese da classificação dos ateísmos. Texto longo, mas não muito.


A Força Que Nos Une

Música Aos Orixás


O site alega autoria de Ana Ferrari. Transponho para cá para facilitar a análise, o link para a fonte é https://www.letras.mus.br/musica-aos-orixas/a-forca-que-nos-une/.


Cada um tem sua fé, cada um tem seu caminho

Eu respeito sua crença, você respeita a minha

A força vem de cima, não importa o nome, não

O que importa é ter axé dentro do coração


Eu sou de axé, mas não julgo ninguém

Se você reza o terço ou se busca o além

A energia que me cura, cura você também

Seja na igreja, mesquita, templo ou terreiro de alguém


Não importa se é Jesus, Oxalá ou Alá

Buda, Krishna, Zambi, todos vêm pra nos guiar

A verdade que eu aprendi no chão do meu terreiro

É que o amor não tem religião, é universal e verdadeiro


Acende a vela, faz a prece, canta o mantra seu

A fé não tem fronteira, o sagrado sempre venceu

Cada um na sua forma, mas a essência é uma só

O divino tá em tudo, tá no axé que é maior


Eu respeito sua fé, você respeita a minha

Porque a força que sustenta é a mesma que caminha

Não importa o nome, não importa o lugar

Laroyê, amém, axé, tudo vai se encontrar


Shalom, namastê, que assim seja, inshallah

Todas as preces sobem pro mesmo Olorum, pro mesmo pai

Se é paz que você quer, respeito é a solução

Sua forma de crer merece toda proteção


Já vi católico chorando pedindo uma luz

Já vi evangélico orando com quem cultua Exu

Já vi ateu de joelhos quando a dor bateu forte

E foi a fé que ele buscou que mudou a sua sorte (negrito meu)


Não é sobre tá certo, é sobre estar de pé

É sobre respeitar o sagrado de cada ser que crê

Eu tenho meu orixá, você tem sua proteção

Mas quando o mundo aperta, a gente se dá a mão


Queimaram os terreiros, perseguiram a fé

Julgaram quem é diferente, pisaram no axé

Mas a fé verdadeira não cabe preconceito

E quem ama de verdade, abre espaço, dá respeito


Deixa eu ter meu Exu, deixa você ter seu santo

Cada um com sua força, cada um com seu encanto

Quando a vida apertar e o desespero chegar

É na espiritualidade que vamos encontrar


Eu respeito sua fé, você respeita a minha

Porque a força que sustenta é a mesma que caminha

Não importa o nome, não importa o lugar

Laroyê, amém, axé, tudo vai se encontrar


Shalom, namastê, que assim seja (axé)

Todas as preces sobem pro mesmo Olorum (em pé)

Se é paz que você quer, união é a missão

Sua forma de amar merece toda proteção (ê)


O respeito é o axé

A união fortalece a fé


O respeito é o axé

A união fortalece a fé



Pois é. Pela composição, podemos imaginar que a autora da música, aparentemente praticante de religião de matriz africana, pretendia fazer uma letra ecumênica, com respeito às diferenças, com aceitação do diferente. A música é boa, e ela quase consegue. Ela aceita toda fé, e nada além disso, buscando validar sua posição de crença através da aceitação de outras posições de crença diferentes da sua.

Ela parece ter tido boas intenções ao incluir os ateus na letra, a maioria das pessoas simplesmente ignora, quem somos nós, não é mesmo? Ateu não tem rosto. Certamente não somos o público que ela mira, e para a maioria dos crentes, as colocações feitas sobre o ateísmo podem parecer plausíveis - esses versos reforçam a noção que crentes têm de que a fé é algo bom.

Lembro de uma manifestação convocada no centro do Rio de Janeiro pelo fim da intolerância religiosa, nos idos de 2009-2010. Chegamos dispostos a somar, e estavam já organizados, multidão com faixas e cartazes. O lema principal era: “eu tenho fé”. “É mesmo?” ― pensamos ― “Vocês têm fé? Pois nós não temos, e não tem nada de errado com isso.” Nos sentimos excluídos, abandonamos o local e fomos dali para um bar. Qualquer outra atitude seria ultrajante. Os organizadores procuraram buscar unidade. Não disseram em que deus ou ser seria essa fé. Visivelmente, para eles, nós não existíamos. Em outra ocasião, semanas depois, os próprios ateus convocaram uma passeata sobre o fim da intolerância religiosa. Avisamos a polícia. Divulgamos no facebook. Mandamos convites pra igrejas, templos, terreiros. Postamos nas nossas redes à exaustão. Chegamos lá, estávamos meia dúzia de ateus e a polícia. Nenhum religioso. Pois é. Não queriam mesmo o fim da intolerância religiosa? Se a igreja não mandar, o fiel não sai de casa?


Vou retomar o texto em negrito.


Já vi ateu de joelhos quando a dor bateu forte

E foi a fé que ele buscou que mudou a sua sorte


Vejam só. Ela lembra que o ateu existe, e dá valor ao ateu somente diante do potencial que o ateu tem de deixar de ser ateu. Nós ateus, assim como nós somos, não somos aceitos nem valorizados e ela nem consegue esconder isso. Será que ela se preocupou em nos humanizar? Não que queira desumanizar, isso não parece pretendido ― antes, peca pelo desconhecimento. Os ateus têm voz, mas ninguém quer nos ouvir. Quando se fala de budismo, procura-se um templo ou monge budista para pedir esclarecimentos; quando se fala do catolicismo, o padre ou a igreja; quando se fala de uma religião de matriz africana, é possível se informar no terreiro ou com pais e mães de santo reconhecidos pela comunidade. Mas quando se trata de falar sobre ateísmo, todos se acham capazes de entender sem precisar aprender.

Ela aponta para um lugar comum entre os crentes, aqui entendidos como quem crê, não importa em qual confissão: a autora entende a fé como uma virtude, e faz parecer que só através da fé é possível suportar a dor que inevitavelmente atravessa as vidas de nós seres humanos. É um erro crasso, em dois sentidos: nem a fé é uma virtude, nem é necessária para coisa alguma.


Ninguém escolhe no que acreditar

Quando nos dizem algo, avaliamos o que foi dito, confrontamos com nossas experiências passadas, e assim podemos saber se o que está sendo dito é plausível ou não. Isso tem mais a ver com familiaridade do que com conhecimento propriamente. O crente nasce e cresce em um ambiente onde se fala sobre deus (ou deuses) como se realmente existissem. O crente está familiarizado com a ideia de um deus, seja protetor, seja criador, ou provedor, ou o que sua religião preconizar. Mudar essa posição exige esforço. A religião se propaga por inércia de pai pra filhos, embora seja possível a mudança. A criança cresce e vai tendo acesso a outros núcleos de convívio que não o familiar, e pode desenvolver novos hábitos, costumes e crenças - ou perder suas crenças. O ponto aqui, é que acreditar não é algo sobre o que possamos deliberar. Não escolhemos ser cristãos, não escolhemos ser budistas, não escolhemos ser ateus. Ninguém escolhe ser discriminado. O posicionamento religioso e irreligioso é algo complexo, que envolve entendimentos sobre dogmas, sentimentos arraigados e difíceis de explicar, acolhimento da comunidade, aceitação de preceitos e vivências de práticas e de rituais. Essas configurações, símbolos e práticas comunitárias combinadas geram um conjunto de significados amplo, que produz uma identidade individual à qual nos apegamos. Essa identidade pode passar pela fé em um deus. Pode passar pela fé em um pneu sagrado no meio da rodovia (por que não?), pode envolver conjuntos complexos de rituais sem nenhuma fé em nenhum deus, ou até mesmo a descrença e irreverência despreocupada. Quanto à fé, para mim, vale o que disse Nietzsche: “Ter fé é não querer saber o que é a verdade”.


A fé não é virtude absoluta. Ainda assim é necessária?

Quem frequenta a igreja, o templo, o salão do reino, a sinagoga, a mesquita, vai encontrar em cada um desses ambientes formas diferentes de amparo, de entendimento, de solidariedade, de acolhimento. Todas essas práticas podem ocorrer, de uma forma ou de outra, sem a crença em uma divindade sequer, e sem a padronização impositiva de um conjunto normativo sagrado. Os ateus desenvolvem outras formas de lidar com a dor, com o luto, com o sofrimento, e são capazes de obter resultados tão satisfatórios e elevados como qualquer outra pessoa. Crentes ou não, o que faz com que superemos adversidades é a nossa condição humana. É isso que nos liga. Na Idade Média, a religião significava a coesão social da comunidade. Esse tempo acabou: vivemos e convivemos em um espaço onde diferentes manifestações de crença e de descrença precisam ser aceitas, acolhidas e respeitadas. Cidadania não é questão de religião, nem de crença, nem de descrença, e se há quem dependa da fé, não somos nós ateus.


Quem são os ateus?

Quando perguntamos se deus existe, nem todos acham que essa é uma questão relevante a ponto de se debruçar sobre ela. E está tudo bem com isso, esses são os ateus práticos. Quando esmiuçamos a questão da existência ou não de um possível deus e achamos que a questão não pode ser respondida de forma categórica, temos os agnósticos. O agnóstico não é indeciso, ele entende que a questão da existência ou não de um ser superior está além da capacidade humana e não pode ser resolvida com nossas mentes limitadas. Quando alguém se debruça sobre a questão e conclui que deuses não existem, temos o ateísmo filosófico. Este se divide em duas categorias: há ateus que acham que não temos evidências para acreditar em deuses, e por isso, a postura mais correta é duvidar disso. Esse é o ceticismo. Os céticos não dizem que deuses não existem, apenas preferem não acreditar por falta de evidências em favor da hipótese da existência de deus(es). Mas há quem afirme categoricamente que deuses não existem. São os ateus dogmáticos. Essa última postura é a mais difícil de sustentar, pois exige assunção de dogmas, preceitos aceitos sem muita fundamentação que são vistos por muitos ateus como um mal ou inconveniente. Há ainda um último grupo, que não é raro como parece. Quando uma pessoa nunca ouviu falar de deus, temos o ateu por ignorância. Esse ateu ignora a questão sobre existência de divindades, e por isso mesmo não possui nenhuma crença. É o caso de quem vive em lugares isolados, sem contato externo, ou que tem problemas graves de comunicação. É possível perceber que essa definição abarca todas as crianças recém-nascidas, que não concebem a ideia de qualquer divindade por ser jovens demais para entender o conceito. Todos nascemos ateus, em todos os lugares do mundo. Muitas pessoas perdem essa condição ao ter a transmissão da religião a partir da fé de seus pais. E está tudo bem com isso.

Como comecei com uma música, vou apresentar outra, esta do meu amigo Jota Santos: https://www.youtube.com/watch?v=zp2mEpYiSlQ.

Hoje uma amiga ateia está a caminho do crematório. Não pudemos nos despedir.

Um abraço, até mais ver.


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