Apresente-se
GFIM:OBSN (2026-02-11)
Podem dizer que não é nada:
nada que já não tenha sido feito.
Neste sol escaldante do deserto,
quarenta anos de solitária viagem;
isso, sem ter ido tão longe,
mas sem nenhum abrigo perto.
O ter visto amenos momentos
em uns poucos oásis na estrada,
não faz o clima menos árido.
A monotonia da paisagem,
interrompida aqui e ali
por algum novo pedregulho,
que me sussurra,
cuidadoso,
para que ninguém mais o ouça:
"Tire-me do caminho!"
A sede aperta;
esse mundo inóspito,
sempre o mesmo,
mas que já não reconheço,
não facilita a passagem
a um homem como eu,
explorador antártico em traje polar,
a devassar as quentes areias
em companhia de cactos e abutres.
Eu também não lhes dou passagem.
A promessa de um prêmio oculto me acompanha.
Miragem?
Meus pés, acostumados à dureza do caminho,
não sabem senão prosseguir.
Prosseguir este destino errante,
de quem, com alguma sorte,
desce o balde ao poço
e tira dele água limpa e inocente.
Miro e vejo meu reflexo,
esforçando-me por imaginar
um fortuito e improvável acaso:
será também assim a face de meu semelhante?
Algum dia encontrarei algum, nesta amplidão?
Deve haver algum prêmio por isso.
Desbravar as areias quentes e secas
a mando de um sem-número de imperativos,
uns quentes e secos "Tu Deves"
emanados de alguma sombra escura,
sempre a mesma,
e que também não mais me reconhece:
nem a face, nem a voz.
Meu canto alto e expressivo,
ninguém o acompanha,
mas levo-o adiante,
e assusta todas as sombras,
e liberta a dor contida.
Sendo o prêmio o descanso,
poderia tomá-lo agora;
Se há algo bom por vir, por gentileza,
Apresente-se.

