Leitura, atenção e cansaço em tempo de ultraconexão: rumos de uma sociedade fragilizada
GFEE:IOCC (2025-11-15)
A leitura é um ato de conexão: podemos, abrindo um livro, ter uma janela aberta para um passado distante e que já não retorna, onde as vozes de nossos antepassados ainda ressoam, ou mesmo para um período presente que pode ser ao mesmo tempo próximo e inacessível. Ela nos permite conectar ao outro, perceber o mundo por outros olhos, assimilar ideias, remover ou mitigar limitações. Pode também ser apenas um ato de diversão despreocupada, passatempo lúdico onde ainda assim se estimula a imaginação e se amplia a compreensão de mundo.
Há algum tempo tenho percebido um aumento considerável na dificuldade de me manter concentrado, especialmente para ler. Quando eu era mais novo, antes do advento da Internet, eu podia pegar um livro de, digamos, duzentas e cinquenta páginas ou pouco mais, e lê-lo de uma vez só. Hoje, iniciar um momento de leitura tem sido desgastante. É fato que tenho menos tempo disponível do que tinha quando era criança ou adolescente, mas parece haver algo mais.
Meu interesse não diminuiu. Sobre a escolha do que ler, nunca houve tanta oferta, o que me põe em dilemas frequentes sobre como priorizar leituras. É importante ler coisas novas, mas ao fazer isso não sabemos se estamos lendo algo bom ou desperdiçando nosso escasso tempo à toa. Poderia escolher algum clássico, o que oferece menos risco de errar. Gosto particularmente de ler os livros de certo escritor contemporâneo. Dificilmente a experiência de ler algumas páginas dele seria desagradável, e isso, ainda assim, não facilita a tarefa. Tenho várias obras dele aqui, li algumas, e já não consigo prosseguir, embora alguns exemplares soem insistentemente seus cantos sirênicos conclamando à leitura.
Além da rotina do dia a dia não ser tão disponível ao lazer, temos a competição entre a literatura e leituras técnicas, acadêmicas, e também o que não deveria ser, mas acaba se tornando um problema: o fluxo infinito de conteúdo que emana das redes sociais. É impressionante como as notícias se sucedem de forma rápida e impiedosa, com uma urgência implacável e capaz de desassossegar até o mais plácido monge. A vida não deveria sempre urgir, esse ritmo é insustentável; novas legislações, novas doenças, novas ameaças, fome, guerras... Há espaço para a cultura enlatada e também para a arte mais sensível. Informar-se virou questão de sobrevivência, e lidamos diariamente com uma disputa feroz por nossos olhos e ouvidos cansados.
Sim, sobrevivemos nessa corrida infernal rumo à deterioração do planeta, talvez um tanto desatentos às questões que mais nos importam, aquelas que remetem à construção de relacionamentos saudáveis, da manutenção de uma mente sã e ativa para além do copiar, colar, pesquisar e lançar nossas dúvidas ao gerador de lero lero de nossa preferência. Temos delegado a máquinas a poesia, a música, as artes plásticas, e o que mais nos edifica; as decisões mais importantes e definidoras de nossos destinos já não são tomadas por nós mesmos, mas por alguma misteriosa vontade que, alinhada a interesses alheios aos nossos, se manifesta nas linhas incertas que a inteligência artificial nos retorna. Inteligência artificial, essa alegoria fantasma, mal definida e mal usada, catacrese assustadora que nos ocupa e preocupa, que nos ajuda e subjuga, moldando nossos desejos, ideias e valores.
Para muito além das miragens que usualmente contemplamos, algumas boas respostas, quiçá muito úteis, jazem escondidas em estantes empoeiradas, sem que alguém se disponha a lhes trazer novamente a luz da vida através da leitura.
O viver começa quando deixamos de ter que nos preocupar com o sobreviver. Estamos esgotados, emocional e afetivamente indisponíveis a maior parte do tempo. Nunca o trabalho foi tão eficiente em sua produção, e podemos constatar que o aumento de eficiência não se reverte em ganho para o trabalhador: cada vez mais temos que nos preocupar com a sobrevivência enquanto alguns, privilegiados e alienados do conhecimento do que é a vida para o povo, conduzem o mundo à destruição e se esquivam de qualquer responsabilidade. A tecnologia avança. Quando será que, enfim, avançará o suficiente para que possamos começar a viver?
A humanidade caminha docilmente para o precipício. Dificilmente qualquer visionário preveria tão desalentadora distopia. Estamos aqui, limitados e empatados, cercados sem querer pelas armadilhas que colocamos sob nossos próprios pés, mas ainda capazes de lutar, tentando nos guiar neste labirinto a um tempo opaco e caleidoscópico, que parece composto por uma profusão de falsos dilemas: todos os caminhos aparentam nos levar à mesma ruína. O futuro é sempre incerto; a certeza que temos é que sempre há uma saída. Com todo o controle, capacidade de previsão e arsenal de ferramentas que a ciência nos oferece, é temeroso e lamentável nessa jornada insegura o tanto que precisamos, mais do que nunca, contar com a sorte.

